Ir ao índice

Vida de São Bento

Sumário


Prefácio de São Gregório Magno aos seus quatro livros de diálogos

São Gregório Magno SEGUNDO LIVRO DOS DIÁLOGOS: VIDA DE SÃO BENTO Nursia (480) - Monte Cassino (543) PREFÁCIO DE S. GREGÓRIO MAGNO AOS QUATRO LIVROS DOS DIÁLOGOS

“Abatido, um dia, por causa da excessiva afluência de alguns seculares - aos quais, em suas dificuldades, somos muitas vezes obrigados a pagar até o que sem dúvida não devemos -, procurei um lugar retirado, amigo de minhas mágoas, onde pudesse ver com clareza tudo que me desagradava em minhas ocupações e ter livremente sob os olhos tudo quanto me costumava afligir.

Enquanto ali me achava, amargurado e em silêncio por muito tempo, esteve comigo meu amado filho, o diácono Pedro, que desde a mais tenra idade me é familiarmente ligado por grande amizade, e também companheiro no estudo da Palavra Sagrada. Vendo-me o coração devorado de mágoa, disse-me: “Terá acontecido algo de novo, pois estás mais triste que de costume?” “Pedro, respondi-lhe, a tristeza que sofro cada dia, é para mim sempre velha, porque contínua, e, simultaneamente, sempre nova, porque sempre aumenta. Meu pobre espírito, atacado do mal das suas ocupações, recorda o que foi outrora no mosteiro, como as coisas instáveis lhe estavam por baixo, e quanto ele transcendia tudo que passa, acostumado que era a não pensar senão nas coisas celestes; recorda que, embora retido no corpo, já ultrapassava pela contemplação os limites da carne; e a morte, que para quase todos é punição, ele já a desejava como a entrada na vida e o prêmio dos seus trabalhos.

Agora, porém, sofre com as dificuldades dos seculares, por ocasião da cura pastoral. Depois de tanta formosura do tempo da sua paz, está hoje enfeiado do pó da atividade terrena. E como, por condescendência com muitos, ele se dissipa pelas coisas de fora, mesmo quando retoma o curso da vida interior, é, sem dúvida, debilitado que a ela volta.

Estou, pois, avaliando o que sofro, avaliando o que perdi; e, enquanto considero o que perdi, pesa-me ainda mais o que suporto. Eis, com efeito, sou agora batido pelas vagas de alto mar, e os ventos de forte tempestade despedaçam a nau de minha mente; quando me lembro da vida anterior, suspiro como se estivesse vendo atrás de mim o litoral. E, o que é ainda mais triste, enquanto sou levado no tumulto de imensas ondas, mal posso ver o porto que deixei; pois esta é a lei das quedas do espírito: primeiro, ele perde o bem que possui, mas ao menos se lembra de o ter perdido; depois, quando avança mais longe, acaba esquecendo o próprio bem que perdeu, e, finalmente, não vê mais, nem de memória, o que antes possuía por experiência. Daí se segue o que antes eu disse: se navegarmos mais adiante, já nem o porto de tranqüilidade que deixamos, podemos ver.

Às vezes, também, para aumento de minha dor, volta-me à lembrança a vida de alguns homens que de toda a mente deixaram este século. Vendo as alturas a que chegaram, fico sabendo quanto me encontro por baixo. A maioria deles agradou ao Criador numa vida retirada; para que o seu espírito novo não envelhecesse por ocupações humanas, Deus onipotente não quis que se ocupassem com trabalho deste mundo.” Mas poderei relatar melhor o diálogo (travado entre mim e Pedro), se distinguir perguntas e respostas pela indicação dos nomes dos interlocutores.

Pedro: “Não sabia que na Itália alguns homens brilharam notavelmente pelas virtudes de sua vida. Ignoro, pois, quem são estes cuja comparação te inflama. Não duvido, é verdade de que houve neste país homens bons, mas penso que ou não operaram absolutamente sinais e milagres, ou, se os operaram, foram até hoje de tal modo pas- sados em silêncio que não sabemos que os praticaram.”

Gregório: “Pedro, se eu referir o que desses homens perfeitos e aprovados eu só, pobre homenzinho, vim a saber do testemunho de gente boa e fidedigna, ou aprendi por mim mesmo, penso que o dia acabará antes da narrativa.”

Pedro: “Gostaria de que em resposta a perguntas minhas contasses alguma coisa desses homens. Não deve parecer condenável interromper com isto a exposição da Escritura, porque não menos edificação provém da lembrança dos milagres. Na exposição da Escritura conhece-se o modo de encontrar e conservar a virtude; na narração dos milagres, conhecemos como se manifesta a virtude encontrada e conservada. E há muita gente que mais pelo exemplo do que pela palavra se inflama de amor pela pátria celeste. Muitas vezes mesmo os exemplos dos Pais trazem à alma do ouvinte uma dupla ajuda, pois, se, de um lado, ele se afervora no amor da vida futura pela comparação com os que o precederam, de outro lado, também se humilha, se julga ser alguma coisa, ao conhecer que outros foram melhores.”

Gregório: “O que fiquei sabendo pela narração ouvida de homens veneráveis, também eu o narrarei sem hesitação, seguindo um exemplo de santa autoridade; pois me é mais claro do que a luz que Marcos e Lucas aprenderam, não por ver, mas por ouvir, o Evangelho que escreveram. Todavia, para tirar aos leitores qualquer ocasião de dúvida, referirei em cada caso que descrever, os autores por quem fui informado. Quero, porém, chamar a tua atenção para o seguinte: em alguns casos guardarei apenas o sentido, enquanto, em outros, tanto o sentido como as palavras dos relatores. A razão é que, se de todas as pessoas eu quisesse conservar textualmente as palavras, a linguagem de escritor não poderia reproduzir dignamente as que foram proferidas em linguagem rústica. Foi de anciãos muito veneráveis que ouvi o que passo a contar.”

Prefácio Prólogo